Luz de Sombra
quarta-feira, janeiro 10, 2007
  O Sofrimento de Escrever

Ora tenho as palavras, ora me escapam, no percurso entre o pensamento e o sentido que lhes quero dar e o tempo de as colocar no papel. Gasto-as, emendo--as, oiço-as, mergulho no seu étimo à procura de novos sentidos e perco-me nas mensagens que me invadem, entre a informação que obtenho e as novas ideias que surgem e se dissipam.
Mas não desisto deste vício de transmitir sentimentos, partilhar convicções, alertar para tanta desumanidade ou simplesmente confortar silêncios.
Haja palavras que consigam dizer tudo o que sinto, penso, sofro, vejo, absorvo! Nem sempre se atinge o objectivo – é verdade – mas a insistência sobrevive ao desespero, o desafio é aceite e o trabalho continua sempre, nesse desbravar de raízes profundas, mesmo quando tantos insistem em saltitar pela superficialidade do palpável!
Dou um exemplo: ontem o meu poema era azul, hoje o silêncio é alvo, mas essas matizes não me satisfazem e irei procurar novos tons para a minha tela incolor.
Não, não quero ouvir mais vozes, quero a ventania do silêncio agudo, quero a luz dos olhares, porque ao encontrar sentidos nasceu a desilusão - mais uma vez me persegue essa espada, até ferir a alma!
Tantas palavras nos separam e nos unem, tantos trambolhões dão estas sílabas desorganizadas, até aceitar o esboço, sempre imperfeito, sempre provisório, sempre rascunho do que afinal não alcanço!
Fumo mais um cigarro, desprezando a informação consciente do mal que faz; sinto a nicotina a satisfazer o vício e pergunto-me pela estupidez do acto, sem querer assumir qualquer resposta...
O momento produtivo esvaziou-se e fica a sensação de um passo em suspenso, mesmo colocando este ponto final.
(2006)
 
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