Luz de Sombra
"Morada da Poesia", CMCV, novembro de 2011, Homenagem a Manuel da Fonseca, pelo seu centenário
TELA ALENTEJANA
Aparece
na paisagem
o monte:
casario arrumado
para pessoas
e animais
com nome.
O olhar estremece
no horizonte
pintado lentamente
com pincéis de calor
e lutas
pela sede da terra
e das gentes
tantas vezes esquecidas.
Aparição
de aromas
que nos abraçam
forte…
O suor do tempo
está presente
na cal dos sonhos
e nos castelos
de outrora…
O pasto imenso
afaga a tela
e os sobreiros
(re)tocam o fundo
infinito…
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RESISTENTES
Trazem no rosto
marcas do tempo
e nas palavras
as histórias prontas
de sempre…
Carregam a solidão
de falar com a terra
como quem escreve
no horizonte
a dureza do trabalho
e as horas da sesta
para fugir ao calor
opressivo.
Morrem de pé
como as árvores
e ficam na memória
das gentes.
Lutam há séculos
na revolução da terra
na rotação dos sonhos
na sede das regas
e na vertigem
das promessas.
Sobrevivem
cheios de força
encontrada na união
do sal
que lhes aquece
as faces
em dias dolorosos
que não esquecem.
Paula Silva
Abril de 2011
In "Morada da Poesia" novembro de 2011, C.M.Castro Verde, Centenário de Manuel da Fonseca
POEMA NU
(A Manuel da Fonseca)
Nós:
corpo no corpo,
as mãos nas mãos
que se soltam
para repousar nos poros
e nas formas de seda
que um dia descobri
no voo do teu mar...
Nós:
aromas estremecidos
depois do abraço
longo
ou a viagem ao céu...
Nós:
o nu contra o nu
entre palavras
entre silêncios
gestos incendiados
no desejo de luz:
é amor, meu amor.
(abril, 2011)
MEMÓRIAS
Fecho os olhos
para me encontrar
no silêncio
de recordações
só nossas...
Sinto o teu aroma
e são nossos os poros
incendiados
... ou perfume estonteante...
Gestos
sem palavras
perseguem-me
nas carícias
vividas pela memória.
No meu corpo
a ausência do teu
em arrepio
de frustração
e tempo...
cai a lágrima
de saudade.
Foi o teu sorriso
doce
que beijei
neste sonho
e saboreei a pele
e o teu mar
nas minhas mãos
trémulas
à procura das ondas...
ou do prazer...
Pesadelo
ao acordar
por não estares
a meu lado...
Fecho-me
perco-me
interrogo-me
neste chão de versos
um dia tão cheios
há tanto vazios...
Onde anda
o teu colo
meu amor?
Como encontrar-te?
Perdi-te?
Já não incendiamos
os sonhos da pele...
(Paula Silva, novembro 2011)
ROSTO DE SAL

Em rosto de sal
mastigo amarguras
desencontros
e palavras duras.
Em solidão
queimo sonhos
ilusões
e mágoas.
Esta
também sou eu.
(13/03/07)
Al(pedrinha) IUm materialista questionava:
Uma terra com alma?
Um dia o destino
Levou-o à encosta
Onde o granito é água,
O verde é luz,
O azul é serra,
E os segredos respiram-se!
O materialista confessou:
Reconheço, e muito me custa,
Há pedrinhas com alma!
Trabalho no campoEm passos demorados
Saboreiam os silêncios
Suspensos ao toque do sino
De semblantes enrugados
Mastigam o passado
Que o futuro já não traz
Carregam a dureza
do trabalho no campo
Já não sonham
Mas ainda vão às festas
à missa
e aos funerais.
(Aos trabalhadores do campo,
de Alpedrinha, pela dureza da jorna,
de sol a sol...)
Segredo-cerejaNum canto do lameiro
Da quinta dos meus avós
Havia uma cerejeira
Inteligente…
Um dia segredou-me
Em voz de vento
E cor de paixão
Bem redonda
Que só morrem
Verdadeiramente
Os sem coração
E sem memória!
SonhosEmbalo sonhos
disfarçados de real
Acaricio desejos
de palavras ardentes.
Grito o silêncio
desfeito na terra
sem fruto
sem raízes
sem semente
que terei para o amanhã?
(Abril/05)
Busca IncessanteProcuro...
entre o grão de areia
e a montanha mais alta
A Palavra.
Procuro...
A sílaba mais simples
o som mais claro,
entre a serra
(a Gardunha)
e a cidade!!
Mas não encontro
senão silêncios de granito!...
(Maio 2005)
Não Sei
É a verdade!
Não sei...
Nem posso saber
do futuro!
Nem sei
Se queria conhecer
esse amanhã.
Sei hoje
Quem amo,
Com o que sonho,
Mesmo que isso
Não me baste!
Tenho uma verdade!
(Maio 2005)

SolidãoEstar só
entre tanta gente...
Mastigar os gestos
entre a saudade
de te ter
nos meus braços...
O olhar salgado
a esconder-se
e uma palavra
que não oiço!
Isto é solidão!
(Maio 2005)
Procissão do Anjo da Guarda
Caminho
Num silêncio iluminado
Abraçada a gente boa
Longa é a distância
E quando a banda toca
Arrepia
Até ao fundo da alma
Não sei
Quem acompanhar…
Divido o coração
Segredando às velas
Que o vento
Não apagou
Quem são os eleitos
Que o Anjo
Há-de Guardar.
Ignoro a multidão
Para me sentir mais perto
Dos que amo.
Não é solidão
Apenas o impossível
De estar e não estar
Mesmo existindo
Uma paz insuportável.
Caminham comigo
Passo a passo
Olhares
Esgares
Disfarçados de abraços
Que sentem
O meu sentir:
São os meus Anjos
Os que me guardam
Quando dói existir
Quando as palavras
Se perdem
E as forças falham.
Acredito neste
Amor
Puro
Sereno
Partilhado na franqueza
De ler nos olhos
A alma.
(Alpedrinha Agosto 2006)
Feira dos Chocalhos I
Entre chocalhos,
Gaiteiros,
Bombos,
Tascas,
Bordados
E amigos…
Cruzam-se sorrisos
de esperança…
e contentamento.
Trocam-se desabafos
e lamentos…
Entre uma perna de filhó,
Um tinto,
Uma rodela de chouriço,
Um pedaço de queijo,
Um naco de pão,
Ou um pastel…
Ouve-se mais uma história:
Da capela do Leão,
Do Picadeiro,
Da serra…
E são três dias
De festa rija!
Feira dos Chocalhos II
O pastor engalanado,
(Cajado bem seguro)
Sobe a calçada.
Distribui sorrisos
Apertos de mão
E sabedoria
De mais de oitenta anos!
O ti Lopes
Está no cartaz,
Nos jornais,
Na rádio,
E nas nossas ruas.
Os forasteiros arregalam o olhar…
Mas nós sabemos
Dos tesouros que ele guarda:
O segredo do queijo
A magia dos silêncios
O recato das serras
A solidão...
(Setembro 2005)
SEGREDO DA GARDUNHASabes!?
O vento trouxe-me um segredo.
Veio da Gardunha!
Não foi um sonho
Nem um desejo
Nem um engano
O vento trouxe-me um segredo...
E veio da Gardunha!
Estava eu a amar…
Quando ouvi um murmúrio…
Era o vento!
Era o segredo!
Era a verdade!
(Junho 2005)Passeio
O verde que flanqueia a estrada
convida
e os aromas campestres
apelam…
Ao longe,
um rebanho sem pastor
é a melodia do tempo.
A irresistível caminhada
é o desafio…
e os passos (in)seguros
procuram o reencontro.
(Junho 2005)
SOLIDÃOCresce o silêncio
Ensurdecedor
À volta destas paredes mudas
…Trancam-se as portas
Da alma…
Murmuro sílabas vazias
À espera do abraço.
O Sofrimento de Escrever

Ora tenho as palavras, ora me escapam, no percurso entre o pensamento e o sentido que lhes quero dar e o tempo de as colocar no papel. Gasto-as, emendo--as, oiço-as, mergulho no seu étimo à procura de novos sentidos e perco-me nas mensagens que me invadem, entre a informação que obtenho e as novas ideias que surgem e se dissipam.
Mas não desisto deste vício de transmitir sentimentos, partilhar convicções, alertar para tanta desumanidade ou simplesmente confortar silêncios.
Haja palavras que consigam dizer tudo o que sinto, penso, sofro, vejo, absorvo! Nem sempre se atinge o objectivo – é verdade – mas a insistência sobrevive ao desespero, o desafio é aceite e o trabalho continua sempre, nesse desbravar de raízes profundas, mesmo quando tantos insistem em saltitar pela superficialidade do palpável!
Dou um exemplo: ontem o meu poema era azul, hoje o silêncio é alvo, mas essas matizes não me satisfazem e irei procurar novos tons para a minha tela incolor.
Não, não quero ouvir mais vozes, quero a ventania do silêncio agudo, quero a luz dos olhares, porque ao encontrar sentidos nasceu a desilusão - mais uma vez me persegue essa espada, até ferir a alma!
Tantas palavras nos separam e nos unem, tantos trambolhões dão estas sílabas desorganizadas, até aceitar o esboço, sempre imperfeito, sempre provisório, sempre rascunho do que afinal não alcanço!
Fumo mais um cigarro, desprezando a informação consciente do mal que faz; sinto a nicotina a satisfazer o vício e pergunto-me pela estupidez do acto, sem querer assumir qualquer resposta...
O momento produtivo esvaziou-se e fica a sensação de um passo em suspenso, mesmo colocando este ponto final.
(2006)
Olhar Lente(O)
Olhar Lente(O)

À TUA ESPERA
Sol:
calor de Agosto
em dias vazios
e lentos...
Mastigo o Verão
de férias inúteis
e vozes estranhas
de queixume...
Queimo a alma
nesta sombra clara
de casa ardente...
Gasto os segundos
somados minutos
à espera que se façam dias.
Agosto/90
Vozes Distantes

(NÃO) SER POETA
Mastigas a solidão
olhando a sombra
dos passos.
Esvaiu-se o horizonte
por não encontrares
a palavra
que tanto procuravas.
Não morreste,
mas será que vives?
Outubro/97
AUTORIDADE(?)
É de granito
essa voz,
e não se torna
àgua...
Subiste à montanha
e por lá ficaste
sem que o caminho
seja de volta...
Outubro/97
VAGABUNDO DA SOMBRA
Olhar manso
passos lentos...
Dói-te existir,
fugiu-te a esperança...
Amas as ruas,
sabes do sol
como das lágrimas,
bocejas na sombra
à procura de ti.
Outubro/97
Um Espaço para Sentir, para Mastigar:
Palavras, Sentidos, Imagens, Sonhos, Luz e Sombra...